Por décadas, Mato Grosso do Sul foi percebido, do ponto de vista econômico e logístico, como uma área de passagem periférica dentro do território brasileiro, distante dos grandes centros consumidores e das principais rotas internacionais de comércio.
Esse enquadramento histórico começa a ser redesenhado com a consolidação da Rota Bioceânica, corredor internacional que liga o Brasil aos portos do Chile, atravessando Paraguai e Argentina, e que transforma o Estado em elo estratégico da integração continental.
Ao conectar o Centro-Oeste brasileiro ao Oceano Pacífico, o corredor amplia a competitividade das exportações, reduz custos de transporte e insere Mato Grosso do Sul em uma nova lógica de circulação de mercadorias, serviços e pessoas.
Mesmo antes da inauguração oficial, os impactos já são perceptíveis. Em entrevista ao Correio do Estado, o diplomata João Carlos Parkinson, do Ministério das Relações Exteriores, afirma que o corredor já influencia a construção de um novo modelo de desenvolvimento regional no Estado. Segundo ele, trata-se de um movimento inédito na história sul-mato-grossense.
“Pela primeira vez, um presidente de país vizinho, no caso o Paraguai, realizou visita oficial a Campo Grande para manter contatos oficiais com o governador. Como previsto, com o corredor, fortaleceu-se a integração física, comercial, econômica e cultural com os países vizinhos”, afirmou Parkinson.
Na avaliação do diplomata, esse processo marca um ponto de inflexão, “o Estado se internacionalizou”.
INTEGRAÇÃO
Para Parkinson, a integração promovida pela rota não se restringe ao âmbito do governo estadual. O diplomata destaca que os municípios também passaram a se reconhecer como parte de um processo irreversível de integração sul-americana.
“As autoridades do Estado entenderam que estão integradas ao continente de maneira irreversível e que é natural que se fortaleçam as relações inter-regionais”, afirmou.
Esse processo de internacionalização, segundo ele, tende a ganhar contornos cada vez mais definidos, incorporando não apenas o aparato governamental, mas também o setor produtivo local.
O resultado esperado é a diversificação da base econômica e a ampliação das oportunidades de negócios, especialmente para pequenos e médios empreendimentos.
Um dos pontos destacados pelo diplomata é o potencial da Rota Bioceânica para beneficiar pequenas e médias empresas, historicamente mais dependentes do mercado interno e do eixo econômico Sudeste-Sul.
Para Parkinson, o corredor valoriza a localização geográfica e o conhecimento local, criando condições para que essas empresas se tornem mais atrativas para parcerias comerciais internacionais.
“Muitas pequenas e médias empresas enfrentaram dificuldades para se projetarem em nível nacional. No entanto, o corredor abriu espaço e tornou essas empresas mais interessantes para futuras parcerias comerciais”, disse.
Na avaliação do diplomata, o fortalecimento do setor privado tende a provocar uma mudança gradual na dinâmica econômica e social do Estado.
Conforme publicado pelo Correio do Estado em outubro do ano passado, a Rota Bioceânica já impactou uma nova fase de desenvolvimento para Campo Grande. A capital de Mato Grosso do Sul passou a ser considerada hub logístico do corredor, com o interesse de grandes empresas em instalar centros de distribuição estratégicos.
A ponte da Rota Bioceânica está com quase 90% da obra concluída - Foto: Divulgação / Toninho Ruiz
Segundo apurou a reportagem, grandes players, incluindo marketplaces, estão entre os grupos que analisam a implantação de estruturas logísticas na Capital.
Esses empreendimentos funcionariam como armazéns inteligentes, preparados para atender tanto o mercado nacional quanto os fluxos internacionais que surgirão com a integração rodoviária.
A movimentação foi confirmada pelo doutor em Economia Michel Constantino, consultor da Secretaria Municipal de Inovação, Desenvolvimento Econômico e Agronegócio (Semades). “Há essa prospecção e estão em fase de pedido de licenças na prefeitura. Mas não tenho os nomes [dos grupos]”, informou ao Correio do Estado.
Ainda de acordo com o economista, trata-se de um movimento estratégico que antecipa os impactos da Rota Bioceânica. “E coloca Campo Grande como polo central de logística no corredor que ligará o Brasil ao Pacífico”, afirmou.
O posicionamento da Capital no coração do corredor explica a atração de investimentos. A Rota Bioceânica terá início em Porto Murtinho, no sudoeste do Estado, atravessando o Paraguai e a Argentina até chegar aos portos do Chile.
Essa ligação permitirá que exportações brasileiras cheguem à Ásia com até 17 dias de economia no transporte, em comparação com a saída pelo Porto de Santos, segundo dados da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc).
ACESSO
O novo posicionamento geográfico de Mato Grosso do Sul ganha relevância adicional com o acesso facilitado ao Oceano Pacífico e, por consequência, aos mercados asiáticos.
A redução de distâncias e custos logísticos cria um ambiente mais favorável para exportações e importações, aumentando a competitividade do Estado no comércio internacional.
Parkinson ressalta que esse movimento já desperta atenção no exterior. Durante viagens internacionais do governador Eduardo Riedel à Índia, ao Japão e a Cingapura, autoridades estrangeiras demonstraram interesse em obter informações detalhadas sobre o andamento das obras do corredor e sobre as oportunidades comerciais que ele pode gerar.
“Com os ganhos de competitividade, o corredor criará novas oportunidades comerciais e atrairá novas empresas e investimentos”, avaliou o diplomata.
Segundo ele, Mato Grosso do Sul poderá tanto importar produtos com elevado conteúdo tecnológico e fertilizantes quanto ampliar as vendas externas de proteína animal e outros produtos do agronegócio, setor que segue como principal motor da economia estadual.
Apesar do potencial, a consolidação da Rota Bioceânica como vetor de desenvolvimento exige avanços institucionais. Parkinson defende que o Estado e o País criem um arcabouço legal e diplomático mais robusto para atrair investimentos estrangeiros.
Entre as medidas apontadas estão a abertura de consulados, a celebração de acordos de atração e proteção de investimentos estrangeiros e o fortalecimento da segurança jurídica.
OBRA
A ponte internacional sobre o Rio Paraguai, que ligará o Brasil ao Paraguai, entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, deve unir os dois países no fim de maio deste ano. No total, são 350 metros que compõe o vão central sobre o rio.
Após a ligação entre as duas metades da ponte, será iniciada a etapa final da obra, que consiste na construção e implantação de calçadas, pistas, iluminação viária e ornamental, pavimentação e sinalização. A expectativa é de que essa próxima etapa seja finalizada em agosto e, em novembro, seja totalmente concluído o acesso à ponte do lado paraguaio.
A Rota Bioceânica será um corredor rodoviário com extensão de 2.396 quilômetros que liga os dois maiores oceanos do planeta, Atlântico ao Pacífico, pelos portos de Antofagasta e Iquique, no Chile, passando por Paraguai e Argentina.
A construção da ponte começou oficialmente no dia 14 de janeiro de 2022 e integra um projeto que soma US$ 1,1 bilhão de investimentos do governo paraguaio, no trecho total de 580 km, entre Carmelo Peralta e Pozo Hondo.