Em meio ao elevado endividamento do agronegócio brasileiro, Mato Grosso do Sul registrou a segunda menor taxa de inadimplência nas operações do FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste) entre as unidades federativas da região, até 31 de julho deste ano. O Estado ficou atrás apenas do Distrito Federal.
Com saldo de R$ 15,5 bilhões em parcelas vincendas e R$ 117,7 milhões em parcelas vencidas, a taxa de inadimplência em Mato Grosso do Sul foi de 0,76%, abaixo da média de 0,83% registrada no Centro-Oeste. Os dados constam do relatório do Banco do Brasil sobre as operações do FCO realizadas até julho, ao qual o Campo Grande News teve acesso. Além de Mato Grosso do Sul, o fundo atende Goiás, Mato Grosso e o Distrito Federal.
O documento não informa se a inadimplência considera operações com atraso superior a 90 dias, critério utilizado em alguns indicadores do mercado financeiro. No Estado, 80% das operações têm atendido o setor agropecuário. Os 20% restantes atendem a área empresarial.
Entre os estados com maior produção agropecuária, Goiás lidera a inadimplência, com R$ 185,042 milhões em parcelas vencidas, o equivalente a 0,93% do saldo total de R$ 19,799 bilhões. Desse montante, R$ 19,614 bilhões são de parcelas vincendas.
Em seguida aparece Mato Grosso, com R$ 183,982 milhões em parcelas vencidas e inadimplência de 0,84%. No Estado vizinho, o saldo das parcelas vincendas era de R$ 21,648 bilhões, conforme tabela abaixo.
Inadimplência das operações de crédito de MS no FCO é a 2ª menor entre as unidades federativas do Centro-Oeste (Fonte: Relatório do FCO de julho de 2026)
Sob a gestão do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, o FCO é uma linha de crédito para ampliar o dinamismo das atividades produtivas do Centro-Oeste, com taxas de juros competitivas e prazo de pagamento que pode chegar a 20 anos.
Em julho, o saldo acumulado dos empréstimos do FCO era de R$ 63,132 bilhões. Desse montante, R$ 526,149 milhões correspondiam a parcelas vencidas, com inadimplência de 0,83%.
Histórico das operações de crédito dos entes federativos, incluindo MS, no âmbito do FCO (Fonte: Relatório do FCO até julho de 2026)
O diretor da Agricon Consultoria, o economista Fábio Ferreira Júnior, analisou os dados e considerou baixa a inadimplência nas operações do fundo quando comparada às taxas registradas no mercado bancário, em torno de 5% na carteira global do sistema financeiro.
No balanço do segundo trimestre deste ano do Banco do Brasil, principal operador do FCO, a inadimplência do agronegócio com atraso superior a 90 dias chegou a 6,27% da carteira rural, contra 3,16% um ano antes. O BB tinha uma carteira de agro de R$ 421,6 bilhões em junho.
“O que precisa observar é a tendência do indicador de inadimplência das operações do FCO. Ou seja, se o índice está em alta ou em queda”, defende o economista. O relatório de 46 páginas não detalha o histórico de inadimplência do crédito do FCO.
Bônus de adimplência
Diretor da Agricon Consultoria, Fábio Ferreira Júnior, diz que inadimplência baixa é influenciada por bônus de adimplência de 15% para quem paga parcelas em dia e pelo rigor nas operações do FCO (Foto: Divulgação)
O diretor da consultoria atribuiu o baixo índice de inadimplência das operações de crédito do FCO, principalmente em Mato Grosso do Sul, ao bônus de adimplência, que reduz em 15% os juros para quem paga as parcelas em dia.
“Isso também estimula o tomador a manter os pagamentos em dia”, avalia.
Em vigor no FCO Rural desde 2024, pelo menos, o bônus foi mantido na última resolução do CMN (Conselho Monetário Nacional) para operações contratadas entre 15 de julho de 2026 e 30 de junho de 2027. A ideia é estimular a adimplência e poder contribuir para que o produtor mantenha a capacidade de pagamento dos empréstimos.
O economista chama também a atenção para o rigor adotado pelas próprias instituições financeiras que operam o crédito FCO, como o Banco do Brasil, que têm adotado regras mais criteriosas na concessão dos financiamentos. Em julho, o saldo da carteira de risco assumido pelo BB no FCO alcançou R$ 58,5 bilhões, conforme o relatório.
“O Banco do Brasil, por exemplo, é muito mais criterioso para conceder um crédito com recursos do FCO do que para conceder um crédito próprio, porque está trabalhando com um recurso que vem do governo federal e que não é dele. Então, precisa fazer uma gestão mais cuidadosa”.