Com um pacote que ultrapassa os R$ 23,3 bilhões (US$ 4,5 bilhões) a serem injetados na Bolívia deste ano até 2028, via Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o país vizinho quer entrar na disputa para ser um hub entre o Brasil e o mercado chinês, além de acesso a mercadorias da Argentina e do Chile.
A Bolívia já discutiu com o governo brasileiro e países sul-americanos estar no centro de uma rota bioceânica, mas perdeu espaço nos últimos três anos com o aumento de investimentos do Paraguai. A partir desse pacote anunciado neste ano, o cenário muda para os bolivianos.
Em nota ao Correio do Estado, o BID informou que o projeto bilionário tem três pilares a serem executados. O primeiro envolve estabilização e proteção social no curto prazo, o segundo envolve crescimento e produtividade e o terceiro é a sustentabilidade ambiental.
Essa etapa envolve investimentos para logística, com reflexo direto na interação com a economia brasileira e relacionada a negócios em Mato Grosso do Sul, onde está o maior porto seco do Centro-Oeste, com volume de negócios de mais de R$ 1,6 bilhão.
“Por meio da iniciativa Bolivia Crece, o BID impulsiona o crescimento abordando tanto a estabilização de curto prazo quanto o desenvolvimento sustentável de médio prazo. Esta ação está focada em setores estratégicos para aumentar a produtividade e a diversificação da economia.
Além disso, iniciativas como o Conexão Sur permitem ao país opções para se beneficiar da integração regional e da conectividade logística”, informou o BID ao Correio do Estado.
Além dos recursos financeiros, o país vizinho divulgou sua posição de buscar protagonismo, com reflexos para o Brasil, durante o Fórum Econômico Internacional para a América Latina e Caribe, que ocorreu no fim de janeiro, no Panamá.
O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, divulgou que o país quer ser o “porto seco” para ligar o Brasil ao Chile, o que levaria aos portos da China. A divulgação feita pelo chefe do Executivo boliviano repercutiu em sites econômicos especializados que analisam o mercado sul-americano para os Estados Unidos.
Além do Brasil, a Bolívia sugeriu que também pode ser um hub com Paraguai, Argentina, Chile e Peru, com quem faz fronteira.
Nessa logística, Paz destacou a importância da hidrovia Paraguai-Paraná, que atualmente está no centro de uma disputa entre Estados Unidos e China em território paraguaio e, no Brasil, aguarda a possibilidade de ser privatizada em trecho de Corumbá até Porto Murtinho.
“A Bolívia tem suas cinco fronteiras, e os presidentes desses cinco países podem fazer parte do que o país está buscando, que é a Bolívia com o mundo e o mundo com a Bolívia. Queremos alcançar a abundância e queremos fazer isso com todos”, declarou Rodrigo Paz em seu discurso no fórum.
O presidente boliviano pontuou em seu projeto de infraestrutura no evento internacional que os principais pontos são o Túnel Aguaragüe, no departamento de Tarija, fronteira com o norte da Argentina e onde há linha férrea em funcionamento que liga a Santa Cruz de la Sierra até Corumbá, e a rota bioceânica férrea, que pode concentrar o transporte de minério de ferro, principalmente extraído em Corumbá e em Puerto Quijarro.
Nessa exposição de Rodrigo Paz, estiveram presentes o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, e Turismo, Gustavo Feliciano, além de outros representantes do governo brasileiro e presidentes de Chile, Colômbia, Equador, Guatemala e Panamá e do primeiro-ministro da Jamaica.
INVESTIMENTOS
A capacidade financeira depositada nos recursos a serem destinados pelo BID fez com que a Bolívia promovesse um painel exclusivo para apresentar, durante uma hora, o planejamento de investimentos e o plano de desenvolvimento.
Apresentaram as linhas de trabalho o ex-executivo do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF) Enrique García, o ministro de Economia e Finanças Públicas da Bolívia, José Gabriel Espinoza, o ministro de Desenvolvimento, José Fernando Romero, e o presidente da agência de fomento boliviana Cainco, Jean Pierre Antelo.
“A Bolívia apresentou seu plano estratégico de uso de recursos naturais, sua posição andino-amazônica, sua expansão do mercado interno. A discussão demonstrou oportunidades para investimentos privados e públicos, turismo, economia do lítio e fortalecimento da integração logística”, divulgou o CAF, em nota.
Nessa agenda de discussões, o Brasil não teve espaço exclusivo para divulgar planos e estratégias. Nenhuma autoridade brasileira também teve espaço reservado para apresentações, exceto Lula, que fez discurso na abertura do fórum.
Enquanto a Bolívia tenta se posicionar de forma central na economia entre o Brasil e outros mercados da América do Sul e da Ásia, o Paraguai divulgou na sexta-feira que as obras para acesso à ponte da Rota Bioceânica seguem em andamento.
A ponte em construção conecta as cidades de Carmelo Peralta e Porto Murtinho. Essa obra está avaliada em mais de R$ 100,8 milhões, custeada por Itaipu Binacional e executada pelo Consorcio Vial de Integración, integrado por Tecnoedil S.A. Constructora e LT S.A. O prazo de execução é de 12 meses.